Posts tagged ‘peludos no céu’

Caducando

Eu não sabia que cachorro caducava. Mas Cinira me ensinou que isso também acomete cães. Quando a vira-lata amarela estava com seus 10 anos, mais ou menos, coisas estranhas começaram a acontecer em nosso quintal. Meias, cuecas, calcinhas e blusas desapareciam sem deixar rastro. Colocávamos para lavar e nunca mais voltavam! Foram semanas de diálogos surreais entre meus pais, minha irmã, nossa auxiliar e eu, tentando compreender como as roupas sumiam. E foi nossa auxiliar quem deu o primeiro flagrante: Cinira aproveitava quando as roupas secavam no varal, pulava, pegava e ajeitava a trouxinha na boca; depois, caminhava pelo quintal, como que procurando o melhor cantinho; cavava um buraco, depositava a peça com cuidado e depois enterrava. Logo, minha irmã e eu conseguimos flagrar um desses momentos, em que Cinira parecia estar em transe. A gente ria, mas não entendia bem o que acontecia com a cadela.
Claro que fizemos praticamente uma escavação arqueológica pelo quintal, conseguindo recuperar boa parte das peças. Algumas não pegavam conserto. Outras, bastou lavar e pronto! O jeito foi subir o varal, de modo que ela não alcançasse mais, nem saltando. O veterinário da época não conseguiu explicar o comportamento. Nós concluímos que era a idade, pois ela não fazia isso antes. Por via das dúvidas, colocamos também umas cobertinhas na casinha da Cinira. Curiosamente, essas ela não enterrava!
Talvez esse seja o primeiro da série “grandes mistérios caninos” que ninguém explica.

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01/11/2011 at 15:05

Mafalda

Nosso terceiro cocker preto – e quarto cão no quintal – chegou por acaso. Meu padrinho estava com um amigo que precisava doar a cadelinha. A figura tinha dado de presente para a mãe idosa uma filhote de cocker, cheia de energia e muito atentada (como qualquer filhote, aliás). O resultado era que a senhorinha não estava dando conta de tanto agito e a cadela precisava de um novo lar. Assim, minha irmã e minha mãe logo quiseram levar a dita cuja para casa. Lá fui eu, recém habilitada, com a minha irmã buscar Mafalda.


A primeira descoberta foi de que ela não era tão filhote assim. Pergunta daqui e dali, descobrimos que passou por umas sete casas antes de ir parar na nossa. Ou seja, deu um trabalhinho para ela aprender seu novo (e oitavo) nome. Mafalda era deveras agitada e roía tudo que via pela frente, bem diferente de Lucrécia e Gerard, os outros dois cockers calmos e tranquilos a que estávamos acostumados. Só anos mais tarde descobrimos que nossa plácida dupla é que estava “fora dos padrões” da raça, que é agitada por natureza. E Mafalda era teimosa, com um gênio dominante, deu um certo trabalho ensinar a regras da casa para a recém chegada.

Carinhosa e chegada em mimos, logo conquistou espaço. Nos primeiros tempos, dormia dentro de casa. Uma das cenas mais engraçadas que presenciei foi numa madrugada, quando levantei para beber água e acendi a luz da sala de jantar, Mafalda estava sobre a mesa, beliscando um paõzinho esquecido por ali. Desde então, as cadeiras da mesa de jantar precisavam ficar beeeem escostadas, porque se desse espaço, ela subia na mesa, na esperança de fazer um lanchinho extra. De outra vez, chegando em casa a pé, ouvi um choro de cachorro desde o ponto de ônibus e pensei: “quem está torturando essa pobre criatura?” Ao abrir o portão de casa, me dei conta de que a gritaria vinha dali de dentro mesmo. Abri a porta da sala e pedaços de almofada estavam espalhados por todo canto. Mafalda pulava de alegria, me arranhando toda. Ela nunca gostou de ficar sozinha.

Passado alguns meses – e algumas coisas destruídas – conseguimos adaptá-la aos outros cães da casa. Ela se mudou para o quintal e começaram pequenas rusgas com a chefe da matilha. Mafalda e Cinira se estranharam algumas vezes, mas Gerard se encarregava de colocar ordem na bagunça.

26/04/2010 at 19:17 1 comentário

o primeiro e o segundo cocker

Quando nos mudamos, Cinira e Lucrécia dividiam o quintal. Mas a cocker desfrutava de alguns privilégios, como transitar livremente dentro de casa, coisa que nossa vira-latas nunca pode fazer. Cinira era um cachorro de quintal, pelo seu porte e seu jeito; era maior, desajeitada e quando entrava, vez por outra, gostava de correr de um lado para o outro, só para conferir quem estava em casa. Ela mesma seguia para o quintal, nem precisávamos mandar.

Lucrécia era calma, alegre e dengosa. Adorava colo, afagos, carinho. Dormia perto de onde a gente estivesse e seguia minha mãe como uma sombra. Quando completou 3 anos, decidimos que queríamos uma ninhada dela. Por intermédio da veterinária, fizemos contato com uma criadora da raça e ela levou um de seus cães reprodutores para passar uns dias em casa e providenciar os cachorrinhos. Aquele cachorro ficou por lá mais de 15 dias. E eu já estava apaixonada por ele!!! Tinha um olhar doce e triste que me dava vontade de chorar. Gerard era um cão com pedigree, tinha porte de quem se apresentava em exposições. Era manso, obediente e um pouco medroso. Mas era lindo demais!

Quando sua dona apareceu para buscá-lo, fiquei num desespero mudo: eu não queria que ele fosse embora de jeito nenhum. Mas não podia fazer nada. Qual não foi a minha surpresa quando a senhora perguntou se queríamos ficar com ele, de presente! Ela estava desfazendo sua criação e achou que ele ficaria muito bem conosco, pois sabia que gostávamos de cachorro. Uma breve consulta à minha mãe e Gerard passou a integrara família. Adaptou-se bem com Cinira e Lucrécia e foi o grande responsável para que elas brigassem menos.

Tanta alegria nos ajudou a superar o revés: Lucrécia deu à luz apenas 2 filhotes, que morreram logo depois de nascer. Ela precisou ser operada e retirar o útero, pois teve uma infecção após o parto. Ficou 15 dias na clínica e voltou para casa bem jururu. Mas logo recuperou a disposição de brincar conosco e com os outros cães.

01/12/2009 at 18:06

deixar ir

Nos 16 anos em que esteve comigo, Cinira protagonizou inúmeros episódios divertidos, outros nem tanto. Mas hoje quero contar de sua despedida. Minha adorável vira-latas estava discretamente surda, ligeiramente banguela e já não enxergava muito bem. Às vezes, estava dormindo tão profundamente que só percebia minha presença quando eu tocava nela, e a pobrezinha tomava sustos enormes por conta disso. Quando começou uma tosse rouca, chamei o veterinário para uma consulta domiciliar. Ele prescreveu um xarope, mas a tosse não passou. Alguns dias depois, ela começou a apresentar dificuldades em comer, pois tossia tanto que a comida voltava. Não teve jeito, ela teve que ir para a clínica. Cinira odiava andar de carro. Que eu me lembre, foi a única vez que ela o fez sem protestos. Precisou ficar no soro, e eu precisei viajar. Quando voltei, dois dias depois, fui visitá-la. Ela se levantou com muito esforço, abanou o rabo para mim e deitou a cabeça em meu joelho. Com os olhos marejados, olhei para o veterinário e ouvi que era preciso deixá-la ir. Abracei minha companheira de tantos anos, dei um beijo em seu focinho e a deixei dormindo. Ela nem me viu sair da sala. Entre lencinhos de papel, ouvi o veterinário explicar que ela não estava doente – nenhum vírus, fungo ou bactéria estava atacando seu corpo – era apenas a idade dando sinal, seus pulmões não conseguiam expelir o líquido e estavam parando de funcionar. Não havia nada a ser feito. Aliás, havia sim: ajudá-la a partir sem se afogar no próprio muco. Fazer com que a ida para o céu dos cachorros fosse mais suave e indolor. E foi assim, suavemente, que deixei Cinira ir embora. Isso não significa que ainda hoje, passados 4 anos, meus olhos não se encham de lágrimas ao ver uma foto sua ou quando me lembro de suas peripécias – que repito, foram muitas! Mas precisamos saber a hora de deixar nossos companheiros cumprirem seu destino. Tudo que é vivo, morre, já disse Suassuna. E a saudade se encarrega de mantê-los sempre vivos em nossas lembranças.

06/08/2009 at 12:22 3 comentários

Cinira na casa nova – os fogos

Aproveitando o tema que preocupa 10 entre 10 mães e pais de cachorros nas festas de fim de ano, achei melhor retomar as historinhas de meus pimpolhos por este viés. Divirtam-se!

Lucrécia e Cinira se adaptaram bem à casa nova. Tinham mais espaço, grama, plantinhas diferentes. Cinira tinha gatos para perseguir – e trucidar quando pegava. Lucrécia preferia perseguir as aves, mas não costumava obter sucesso. Com o passar do tempo, tanto os gatos da vizinhança quanto os pássaros ficaram mais espertos, aprenderam que ali não era mais um território seguro para passeios.

Num domingo qualquer, tivemos que administrar a primeira crise: os foguetes. Nossa casa tinha certa proximidade do Mineirão, o estádio de futebol de Belo Horizonte. E entre os vizinhos, apenas o da lateral esquerda (sem trocadilhos) era Atleticano. Todo os outros moradores da rua eram Cruzeirenses. Não precisa explicar muito para saber que nossa rua sempre tinha foguetório em dia de jogo. E também nos dias seguintes… Lucrécia parecia não se importar muito, mas Cinira ficava apavorada. Corria por todo o quintal e tentava escapar de casa pelas grades da frente. Para evitar essas fugas, meu pai colocou um pequeno portão na passagem lateral da casa. Dele, ela não conseguiria passar.

Hum, em tese. Alguns domingos depois, Cinira ficou entalada no portão lateral pela primeira vez. Foi uma trabalheira tirá-la de lá. Optamos por construir um canil e, momentos antes dos jogos, deixávamos a coitada trancada lá dentro. Era mais seguro para ela – e para nós, pois numa dessas tentativas de tirá-la do portão, meu pai levou uma mordida daquelas! Ela jamais se acostumou aos foguetes. Muitos anos mais tarde, meu futuro marido estava lá em casa comigo e Cinira ficou entalada novamente no portão. Não era dia de jogo – não havia motivo para prendê-la no canil. Ela já estava com mais de 12 anos e bem gordinha. Precisamos pegar um “macaco” (que usamos para trocar pneus) para abrir as grades e tirá-la dali. Brava como sempre, não teve dúvidas: desferiu mordidas nas mãos daquele que tentava ajudar. Por sorte, ela já estava banguela e as “gengivadas” não provocaram ferimentos. Até hoje damos muitas risadas lembrando disso.

09/01/2009 at 18:00 2 comentários

o primeiro cocker – capítulo 1

Uma ida despretensiosa ao Mercado Central, meu pai e minha irmã chegaram em casa com um presente para minha mãe: um filhote irresistível de cocker. Era uma cadela pretinha, de olhos doces, derretida de tão carente. Foi amor à primeira vista! Minha mãe paparicava Lucrécia todo o tempo que passava em casa. Isolada da Cinira até completar o ciclo de vacinas, um dia de manhã meu pai avisou: “essa cachorra não está legal”. Levamos ao veterinário e tivemos o diagnóstico: cinomose. Foram dias intermináveis de internação, visitas chorosas à clínica, tristeza e silêncio em casa. Mas quando ela voltou… a carinha alegre e o toquinho de rabo abanando ofuscaram a magreza e o abatimento. Logo ela recuperou o peso e estava radiante pelo quintal. Lucrécia e Cinira não tiveram maiores problemas de adaptação, uma rusguinha aqui e ali, mas nada de mais grave.

Alguns meses depois, meu pai voltou a chamar a nossa atenção. “Ela não se levantou para fazer festinha, está muito quieta”. Corremos ao veterinário, outra internação, era a cinomose de novo. Dessa vez foi um tempo longo, mais de um mês. O médico foi bem claro, não sabia se ela ia escapar, até porque, não tinha muito o que fazer. Estávamos no início da década de 90 e não havia um tratamento específico. Ele propôs como tentativa uma técnica desenvolvida por ele e ainda em fase de testes. E acrescentou que, caso ele achasse que não valeria à pena insistir, sugeriria uma eutanásia. Foi uma proposta ousada em todos os sentidos, mas minha mãe decidiu aceitar. As visitas foram restritas num primeiro momento e eu não pude vê-la por vários dias. As comunicações eram por telefone, ficávamos torcendo para que a Lucrécia conseguisse se recuperar.

Quando fomos buscá-la, uma choradeira só: entrou na recepção andando devagar, com trechos dos pelos raspados nas patas, por causa do soro, mas abanava o toco de rabo e foi direto até minha mãe. O veterinário nos entregou caixas de medicamentos que ela devia tomar por algum tempo e informou que, à medida que a idade fosse chegando, poderia apresentar sequelas. Chegamos em casa com nossa pequena ainda muito cansada, mas dormimos todos aliviados. Lucrécia mal completou 1 ano quando nós mudamos novamente de casa. Finalmente, meus pais realizavam o sonho de sair do aluguel e ter o cantinho deles. Aportamos com nossas duas cadelas na casa onde hoje vive o Chicó.
(continua…)

28/08/2008 at 23:19

três é demais

Tudo ia bem no quintal dos vira-latas. Mas precisamos mudar de casa e aí foi um auê. Eu não queria, minha irmã não queria, mas não teve jeito: nós e os três cães mudamos de casa e de bairro. A casa era menor, o bairro muito mais movimentado – brincar na rua, nem pensar, passava ônibus na nossa porta! E o quintal… bem, pra falar a verdade, não era bem um quintal. Era tudo cimentado, não tinha uma árvore sequer! No máximo, uns canteirinhos laterais que só foram ter plantinhas depois que minha mãe plantou um monte delas.

Os cachorros enlouqueceram. Brigavam muito, arrancavam as plantas, não aceitavam a casinha nova. Afinal, eram dois machos e uma fêmea num espaço pequeno. Nessa época, nenhum veterinário orientava a castração, que talvez tivesse solucionado boa parte dos nossos problemas… Foram 6 meses de caos. A solução não foi nada pacífica: doar Horácio e Mug, ficaríamos só com a Cinira. Muitas lágrimas e discussões depois, começamos a seleção dos futuros donos. Escolhemos a dedo. Fomos visitar as novas casas e conhecer as pessoas, levamos os cães pela coleira, mais de dois meses nessa função. Novos donos escolhidos, nos despedimos e fomos entregar os bichinhos. Me lembro de chorar por vários dias, abraçada à Cinira, no quintal onde a paz estava estabelecida. Fomos com minha mãe visitar Horácio e Mug muitas vezes depois, e só assim ficamos convencidos de que foi mesmo uma boa providência. Eles reinavam sozinhos, Mug tinha até uma poltrona na sala só para ele, onde dormia e via televisão. Eram casas com crianças que brincavam com eles boa parte do dia. Estavam bem tratados, adaptados, e os novos donos felizes.

Cinira reinava sozinha lá em casa. Ganhou canil e casinha novos. Aliás, esse foi um episódio engraçado. Para fazer o canil, medimos a cabeça dela, de modo que ela não pudesse sair por entre as grades. Encomendamos, instalamos e lá foi Cinira, passava parte do dia presa no canil. Claro que não gostou. Ficou sem comer na hora do almoço por duas semanas. Levamos ao veterinário, que disse que ela estava ótima do ponto de vista clínico, sugeriu que passeássemos com ela. Não deu certo. Cinira não queria ver a cor da rua. Colocar-lhe a coleira era um parto; sair pelo portão, quase impossível. Parecia uma mula empacada! Numa manhã comum, estávamos de saída para a escola e a danada toda feliz, passeando pelo quintal… ué, não deveria estar presa? Deveria. Mas ela aprendeu a passar a cabeçona de lado por entre as grades e, como estava comendo só a metade da ração, perdeu peso e consegiu atravessar as grades!!! Rimos muito e decidimos manter a porta do canil sempre aberta, deixando-a presa só em dias de festa, pois ela era muito brava com pessoas que não conhecia.

Acreditam que Cinira não ficou muito tempo sozinha? Mas esse é um assunto para outro post.

26/06/2008 at 21:24 1 comentário

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